Pioneiro, disco de estreia de Chico Science & Nação Zumbi faz 15 anos
Óculos gigantes e muitas ideias na cabeça. Ao lado, seis companheiros na mesma vibe. Há 15 anos, Chico Science & Nação Zumbi paravam as máquinas da cultura pop musical brasileira e inseriam, por mais que isso pareça contraditório, mais brasilidade nela. O lançamento do disco Da lama ao caos concretizou o movimento Mangue Beat, que seme ou a cena pernambucana e tupiniquim com a mistura entre rock, pop, hip hop, black music e eletrônico (elementos tipicamente americanos) com o maracatu, a ciranda e o coco-de-roda, ritmos da raiz nordestina.
O álbum agora volta em edição comemorativa LP+CD, com tiragem limitada de mil exemplares. Se hoje, após o trágico falecimento de Chico Science em 2 de fevereiro de 1997, num acidente de carro (e a superação dele) em Recife, a Nação Zumbi é uma banda consagrada, em 1994 a coisa era bemdiferente.
“Éramos muito verdes, muito novos. Aquilo era muito mais uma brincadeira do que música de verdade. Não tínhamos experiência de estúdio, nem com os instrumentos”, revela Dengue, baixista do grupo pernambucano. Ele confessa que as lembranças são de um tempo bom,de muita vontade e uma certa ingenuidade.
Após distribuir uma fita demo para cima e para baixo do Brasil, eles receberam contato da gravadora Sony (atual Sony BMG). Ou seja, um começo já por uma multinacional. “A gente não sabia nada, não tínhamos nem advogado especialista. Fomos atrás do cara que fazia os contratos do Alceu Valença”, relembra Dengue. A vontade de Chico Science & Nação Zumbi era gravar um disco, apenas isso. Guardar um registro das canções. Jamais imaginavam que o disco iria marcar uma geração.
A gravação, comandada pelo produtor Liminha, foi complicada. Não existia parâmetro na história da música brasileira de uma banda de rock gravar tambor de alfaia. O mais perto que se conhecia eram os surdos de samba. O que aconteceu a partir daí foi que Da lama ao caos virou a cabeça de muita gente no país. Músicos, críticos, produtores, espectadores… Capas de revista, matérias em jornais e shows. No Brasil e lá fora.
Na Europa, em 1996, CSNZ foram acolhidos pelos Paralamas do Sucesso, veteranos nas turnês pelo Velho Mundo, como atesta o jornalista Jamari França no livro Os Paralamas do Sucesso – Vamo batê lata. Frequentemente, a turma pernambucana agradava mais do que o trio Herbert/Bi/Barone. O próprio vocalista do Paralamas afirmou que um show do CSNZ em Amsterdã, Holanda, foi um dos maiores que ele presenciou na vida.
Show
“Pra gente é difícil considerar ele um marco, mas acredito que seja porque as pessoas dizem”, opina Dengue, que afirma não ouvir o disco há algum tempo. Entretanto, ele teve que voltar às
raízes.
No próximo dia 18, a Nação Zumbi faz show especial de comemoração pelos 15 anos de Da lama ao caos noCitibank Hall, em São Paulo. Eles irão executar o disco todo na ordem e contarão com a participação de dois outros representantes do Mangue Beat, Fred Zero Quatro (mundo livre
s/a) e Otto. Dengue conta que, no processo de ensaios, ele sente a presença de Chico Science do primeiro acorde até o final das canções. “Tudo remete à época em que o fizemos. Shows, situações…”.
O trabalho para a apresentação especial temsido mais ardoroso do que se esperava. “Tinha música que nem me lembrava, tipo Samba makossa. Fiquei me perguntando ‘Como é que toca mesmo?’”,
confessa Dengue, aos risos. Relaxe, mangue boy, as canções de Chico Science& Nação Zumbi estão cravadas na memória da música brasileira e jamais serão esquecidas.
Bandas renovaram a cena pop de Recife
O movimento Mangue Beat tem como marco um texto escrito em 1992 por Fred Zero Quatro, vocalista do mundo livre s/a, chamado Caranguejos com cérebro. Ele falava de como os mangues eram os ecossistemas mais produtivos do mundo e da necessidade de Recife energizar a sua cena alternativa para que ela não morresse.
Da música, veio a moda, os programas de rádio, vídeos e filmes. A capital pernambucana
se encheu de vitalidade e o Brasil olhou com carinho o surgimento de artistas como mundo livreS/A,Otto,Mestre Ambrósio e Sheik Tosado, entre outros. O ritmo influenciou ideias e sonoridades de gente como Gilberto Gil, Sepultura (principalmente no conceito do álbum Roots, de 1996), Marcelo D2 e Charlie Brown Jr.
Filhos do Mangue Beat,grupos como Cordel do Fogo Encantado, Bonsucesso Samba Clube e Mombojô tiveram a oportunidade de surgir numa cena já estabelecida como uma das criativas do país. O choque funcionou e Recife continua fervendo graças aos mangueboys e manguegirls do começo da década de 90.
(Reportagem publicada na edição impressa de 29/08/2009)









