Entrevista com Don L (Costa a Costa)
Acompanhado do grupo “Costa a Costa”, Don L. foi destaque no programa Central da Periferia, de Regina Casé, e recebeu das mãos de Caetano Veloso o prêmio Hutuz na categoria melhor grupo.
Tendo viajado o país inteiro fazendo shows e vendendo mixtapes, agora parte para carreira solo, já reconhecido no meio como um dos melhores rappers do Brasil.
Apresentando produções diferenciadas, tem um jeito peculiar de misturar influências nas batidas e rimas, fazendo com que seu hip-hop seja antes de tudo, boa música brasileira.
Para chegar no mercado com o pé direito, Don L. lança com o grande DJ HUM o single “Não Para”, que com uma batida original e dançante, promete não apenas ser o hit das pistas no segundo semestre de 2009, mas inaugurar uma nova forma de se fazer hip-hop brasileiro.
Fizemos algumas perguntas ao Don L e o mesmo retornou as respostas e segue abaixo a entrevista com o garnde Don L.
Informe Hip Hop -Porque o vulgo Don L e como se deu seu inicio ao rap?
Don L – Acho que é coisa do destino. Eu ouvia um som do Jay-z que eu achava que ele dizia Don Loco, e fui atraz de saber quem era, se era um rapper ou algum cara importante pra saber a história e tal. Don nos bairros latinos é o cara que manda. Isso eu sabia dos filmes de gang, tipo o clássico ‘blood in blood out’. Mas eu não sabia porra nenhuma de inglês, e na verdade ele nem falava isso. Não era Don Loco que ele falava. Aí como eu tinha gostado do nome, adotei como vulgo. Acho que foi porque eu criei tanta expectativa sobre esse nome que ele falava no som, pra saber quem era e tal, que depois que descobri que não era isso que ele falava, o nome já soava grande na minha cabeça, parecia o nome de um cara grande, de um cara que fez história. Porisso resolvi usar. Depois começei a não gostar mais do ‘Loco’, achei que a palavra loco estereotipava a minha imagem, e resolvi mudar. Começei a usar o L. abreviado, como uma incógnita. Aí uns 4 anos depois olha que loco, descobri que ‘Don L. Lee‘ era o vulgo de Haki Madhubuti, um poeta da década de 60, que é precursor dos precursores do rap, é o cara que inspirou os Last Poets. Eu devo ser uma reencarnação desse cara. Só pode ser destino.
Informe Hip Hop -Quais as expectativas pro trabalho solo,além do Dj Hum terá outras participações?
Don L – Além de outra faixas com Dj Hum, quero convidar vários artistas que admiro, que não posso revelar agora, muitos até de outros estilos de música. Alguns produtores também gostaria de chamar pra produzir alguma coisa, tipo Zé Gonzales, Ganja Man, Tejo… Quero fazer uma com o Fernando Catatau também que é meu conterrâneo. Se eu chamasse todos com quem quero trabalhar um dia, seriam umas 300 músicas, então, não sei o que vai rolar. Vamo ver. Quero ver se o Gallo vem numa também, porque apesar de ele continuar fazendo show com o Costa a Costa, ele parou de escrever rap temporariamente pra se dedicar numa missão espiritual, trampando na recuperação de dependentes químicos.
Informe Hip Hop -Percebemos que nas letras do Costa A Costa há trechos que fala sobre ‘ganhar dineiro rápido’, e que muitas vezes se refere ao tráfico,voçê poderia dizer que faz o estilo Gangsta Rap?
Don L – Acho que fiz o autêntico Gangsta. Mas agora já é outro momento. Houve um momento em que tive que fazer uma mudança brusca na minha vida. Mas o que foi dito na mixtape tinha que ser dito, foi uma forma sincera de falar sobre a realidade. Foi necessário pra que várias pessoas me ouçam agora. Algumas pessoas não me ouviriam hoje se não tivessem ouvido o que disse na mixtape, porque hoje elas vão me ouvir sabendo que eu sei do que eu tô falando. A realidade é uma só, ainda é a mesma. O que muda é seu olhar sobre ela. Aquela foi uma visão. Agora vim apresentar outra. Tão sincera quanto a primeira. A primeira pode servir de passagem pra essa nova visão. Agora é outra fase. Outro momento. O que muda é o foco. Eu vim apresentar uma forma de mudar o mundo. É fácil. Você já sabe o que te leva pra cima e o que te leva pra baixo. Você não pode proliferar o que tem de pior, tem que saber enxergar o que tem de melhor mesmo nas condições mais difíceis, nesse exato momento, e trabalhar com isso. Isso vai te ajudar a construir e proliferar o que há de melhor. É como uma escala musical. Você tem que seguir com as notas que soam bem… é a lei do 7. Como você vai saber distinguir o certo do errado ? É simples. O certo é o certo nunca o errado ou o duvidoso. O errado tem um som diferente. Não soa bem. Siga com as notas que soam bem. Não para. E você tá mudando o mundo.
Informe Hip Hop – Numa polemica entrevista ao site Bocada Forte voçê afirmou que 90% do rap Nacional é perda de tempo,voçê poderia explicar porquê?
Don L – Acho que já expliquei naquela entrevista. E já deu tempo suficiente pra cada um tirar suas conclusões. Eu me sentia num mar de mentiras e falsidade. E o que tinha que ser dito foi dito. Só me arrependo de ter sido agressivo com algumas pessoas, porque as pessoas as vezes são reféns de uma situação, e não se julgam fortes o suficiente pra sair dela e construir uma nova com êxito. É um julgamento errado, mas é com elas. Você não pode ajudar a não ser sendo exemplo. Agora, não me preocupo mais com a maioria das questões que coloquei ali. Acho que aconteceu quase tudo que eu previa. Taí o rap nacional. Taí alguns dos próprios caras querendo mudar o que eles construíram. Pega o regulamento do tal do RPB. Resumindo diz assim: Por favor rapaziada! Aquele rap que todo mundo fazia e que a gente dizia que era o certo, agora não vira mais, vamo falar de outras coisas, vamo fazer música que preste, porque tá todo mundo falido.
Lógico que o MVBill é um bom rapper. O Gog é um grande rapper, um dos maiores. Racionais é um grande grupo de rap. Mas são de outra geração. Eles fizeram história. Serão pra sempre lembrados e respeitados. Mas a nova geração tem que agir por conta própria e construir sua parada. Nossa geração precisa fazer história também com idéias originais, não cópia do que já foi feito e já foi dito. Porque se for pra ouvir o que já foi feito, melhor ouvir os clássicos.
Informe Hip Hop -O que vc anda escutando de música ultimamente?
Don L – Música feita com paixão e talento. Esse é o meu critério. Cidadão Instigado, Céu, 3 na massa, Seu Jorge, Otto, Nação Zumbi, Mundo Livre S.A., Mombojó, Cabruêra, e os albums clássicos do hip-hop. Ouço hip-hop atual só se tiver algo de novo, se for só outra versão do que já foi feito, prefiro ouvir o clássico.
Informe Hip Hop -Suas letras estão mais pro lado ‘New School’ voçê costuma falar de mulheres,diversão…como voçê trata dessa postura atual que nao só voçê,mas outros rappers nacionais estão adotando,depois de passar por um Antigo Rap Nacional voltado pra questões políticas,sociais e racias?
Don L – Sei que você não quis dizer isso, mas quero começar dizendo que me classificar como um rapper que fala só de mulheres e diversão é não conhecer o meu trabalho. Eu falo da vida. E a vida tem todas essas questões políticas, sociais e raciais, e também tem mulheres e diversão, e também tem um milhão de coisas além disso, que podem ser assunto de uma música. Você tem que fazer a sua música com paixão, de acordo com sua vivência, sua criatividade musical e sua poesia. Falar de festa e diversão de uma forma artificial não vai soar bem. Quando eu falo disso é de uma forma natural e criativa. A questão não é “sobre” o que você fala, mas “como” você fala. Eu na verdade acho um saco a maioria dos raps atuais que falam de mulheres e diversão. Geralmente é uma cópia muito artificial da forma com que os gringos falam disso, e não soa bem, não por algum motivo especial, mas simplesmente porque não parece ser nosso, o povo não se identifica ali e isso acaba não fazendo sucesso. Se você quer fazer um rap pra competir com os gringos nas pistas, faça como Raul fez rock e Tim Maia fez soul. Eles também tinham muitas influências extrangeiras, mas transformaram em coisa nossa a música deles, mesmo quando não tinha nada de samba ou baião (o que muitas vezes existia), e até mesmo quando eles cantaram em inglês. É coisa pra você estudar e refletir.
Informe Hip Hop -Muitos falam em ‘som de qualidade’ hoje no Rap Nacional,o que seria um ‘som de qualidade’ pra voçê?
Don L – Não existe o “som de qualidade”, mas existe o “som sem qualidade”. Não tem como definir a receita do que faz de uma música uma boa música como se fosse uma receita de bolo. Mas tem como saber o que faz uma música ser necessariamente ruim. A verdade é que o rap nacional tem poucos produtores. Já é difícil ter um cara que faz uma rima boa, com flow, criatividade e conteúdo. Mas mesmo um cara desse ele não tem como fazer música só com isso. Precisa de músicos, porque precisa de música pra ele cantar em cima. E o rapper tem que ser músico também. Pode não saber teoria musical, mas tem que entender de música, como alguns grandes músicos populares sabiam de música sem serem formados em teoria musical, as vezes sem saber tocar um instrumento, mas entendiam tudo “de ouvido” mesmo, conheciam a linguagem dos diferentes instrumentos, e sabiam dialogar com músicos. Os rappers na sua maioria não sabem nada sobre isso. Então eles precisam no mínimo de informar sobre isso, além de ter bons produtores. Mas a maioria dos caras que se dizem produtores não conhecem sequer o processo real de produção de uma música em nível profissional. E o resultado disso é uma quantidade enorme de lixo musical. O conselho que dou pros rappers é o seguinte: Se você não tiver grana, no lugar de fazer um disco inteiro mal produzido, pegue a grana que você faria isso e faça uma faixa, só uma, mas faça ela direito, pague quem sabe pra produzir, mixar e masterizar, e aí você vai ter uma música forte pra mostrar pra outros profissionais da música ou do mercado da música que podem se interessar em trampar com você, de forma mais ampla. Se interesse por música. Vá ver o ensaio de uma banda de outro estilo, uma banda que tenha instrumentos acústicos, acompanhe o processo de criação de um show de uma banda que tenha bom público, que faça bons shows, aprenda com isso, e faça o seu.
Outra coisa é que, fora os que me pagam pra escrever pra eles, os rappers não usam letras dos outros, então ele tem que ser necessariamente um compositor, um letrista. E aí ele tem que saber de poesia. Uma letra de música é uma poesia. Sempre. Não pode simplesmente ser um desabafo ou um texto mal escrito contando uma história. Tem que ter sentimento e poesia, forma e conteúdo. E pra fazer isso bem voçê pode ser um cara altamente letrado e estudioso como Caetano Veloso, ou um analfabeto gênio como Patativa do Assaré. Mas tanto um como outro trabalhou muito pra desenvolver e alcançar a tal da ‘qualidade’ na poesia. E além disso tem que ter a vivência que é de onde sai a alma do bagui.
Informe Hip Hop -Hoje nota-se uma queda no rap Nacional,voçê teria uma explicação sobre isso?
Don L – Politicagem demais e negócios de menos. Incompetência demais e musicalidade de menos. Alienação demais e criatividade de menos. Rappers demais e produtores de menos. Conversa demais e trabalho de menos. Mas isso é com os artistas. O público basicamente só quer saber de duas coisas: se a música é boa, se o show é bom. Se você fizer isso vai conquistar público, vai gerar dinheiro, e vão aparecer (ou se profi$$ionalizar) os intermediários: as produtoras, gravadoras, meios de comunicação etc. Sendo assim, eu não dependo de ninguém, só de mim, pra mudar o jogo.
Informe Hip Hop -Pra quem Don L não deixaria de mandar 1 salve?
Don L – Não deixaria de mandar 1 salve pra todos os que me apoiam na minha luta e sagacidade pra mudar o jogo e fazer o ‘impossível’. Essas pessoas são essenciais e eu não poderia citar todas, porque são muitas. Então não vou citar nenhuma pra não ser injusto. Elas sabem quem são.










acho q sem duvidas ele é o cara do rap nacional!